A mastigação se inicia nos primeiros meses, com controle do corpo e exploração oral. A fono Dra. Patrícia Junqueira explica como mãos, mordedores e o desenvolvimento da boca preparam a criança e quais sinais observar.
Muitos pais acreditam que mastigar é um reflexo natural, mas essa habilidade se constrói aos poucos, bem antes da primeira colherada. A Dra. Patrícia Junqueira, fonoaudióloga e especialista em Motricidade Orofacial, explica como a criança aprende a mastigar, desde o controle do corpo até o desenvolvimento das estruturas da boca, e traz sinais que merecem atenção da família.
O processo começa cedo: quando o bebê leva as mãos ou mordedores seguros e adequados à boca, ele explora texturas e movimentos que ajudam a preparar o caminho para a mastigação. Essa descoberta faz parte de um desenvolvimento global que envolve postura, coordenação e sensações. Aprender a mastigar não é tarefa apenas da boca — envolve toda a criança.
Alguns pontos importantes sobre a função oral: a mobilidade da língua, o encaixe dos dentes (oclusão), os movimentos da mandíbula e a ação dos lábios e bochechas participam ativamente da mastigação. Um frênulo da língua curto, por exemplo, pode limitar movimentos e dificultar a movimentação do alimento dentro da boca; por isso a avaliação deve considerar função, não só aparência. Alterações na oclusão também podem influenciar como a criança morde e tritura os alimentos.
A percepção sensorial — como a criança sente textura, temperatura e sabor — ajuda a localizar a comida e a organizar os movimentos para mastigar. Para algumas crianças, certas sensações podem causar desconforto e tornar a experiência mais desafiadora. Tudo isso se conecta à saúde, ao conforto, à curiosidade e às oportunidades que a família oferece durante as refeições.
Por volta dos seis meses, com o início da alimentação complementar e sinais de prontidão, o bebê encontra novas oportunidades para aprender. Entre seis e nove meses costumam aparecer movimentos iniciais de amassar o alimento com a mandíbula. Aos poucos, a criança amplia a capacidade de movimentar a comida dentro da boca e começar a mastigar. As idades servem como referência, mas é importante observar a qualidade e a evolução das habilidades de cada criança.
Como ajudar no dia a dia?
- #1 Observe o corpo antes de olhar para a colher. Garanta que a criança esteja sentada com segurança, cabeça e tronco estáveis e pés apoiados. Uma posição confortável favorece a participação na refeição.
- #2 Dê oportunidades para conhecer a comida. Olhar, tocar, apertar, cheirar e levar o alimento à boca fazem parte da descoberta. Permita a participação, mesmo quando ajudar com a colher; a sujeira que pode ser limpada é parte do aprendizado.
- #3 Faça a consistência acompanhar o desenvolvimento. No início, amasse com garfo; conforme a habilidade aumenta, ofereça preparações menos amassadas, picadas ou desfiadas. Manter tudo sempre liquidificado reduz oportunidades de experimentar outras texturas.
- #4 Escolha desafios possíveis e seguros. Ofereça alimentos macios e bem preparados, com formato e tamanho adequados. Evite usar alimentos duros como exercício (castanhas inteiras, uvas inteiras, pedaços duros de maçã ou cenoura cruas). Supervisione sempre.
- #5 Compartilhe a refeição e respeite o tempo de cada porção. Sentar e comer junto permite que a criança aprenda por observação. Espere que ela lide com a porção antes de oferecer mais.
- #6 Leve o desconforto a sério. Repetir “mastiga!” pode não ajudar. A criança pode precisar de apoio para lidar com movimento, textura ou desconforto físico; pressionar ou insistir pode piorar a experiência.
Quais sinais merecem atenção?
- Tosse ou engasga com frequência ao comer ou beber;
- Mantém o alimento na boca por muito tempo ou tem dificuldade para mastigá-lo;
- Aceita somente consistências muito específicas e não consegue avançar;
- Apresenta ânsias intensas ou vômitos frequentes nas refeições;
- Chora, se cansa ou demonstra desconforto repetidamente ao comer;
- Faz refeições muito prolongadas ou apresenta dificuldade para ganhar peso;
- Respira frequentemente pela boca ou parece ter dificuldade para conciliar respiração e alimentação.
Esses sinais isolados não definem um diagnóstico, mas merecem atenção e compreensão. Em caso de dúvida, procure um fonoaudiólogo especialista em Motricidade Orofacial com experiência em alimentação infantil. Esse profissional poderá avaliar as estruturas orais e as habilidades da criança e orientar a família, em parceria com o pediatra e outros profissionais quando necessário. Não é preciso esperar o peso cair para buscar ajuda.


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