A convivência do dia a dia forma a base da confiança, muito antes da puberdade. Reações calmas a erros e disposição para ouvir ensinam que ele pode procurar os pais nos momentos difíceis.
Olá, mamães e papais — a relação com o filho adolescente começa a ser preparada muito antes da puberdade, nos pequenos momentos do dia a dia. Essas situações aparentemente simples deixam marcas profundas: ensinam à criança se ela pode contar com os pais quando a vida apertar ou se será mais seguro esconder erros e sentimentos.
Quando um copo é derrubado, por exemplo, a reação dos adultos passa uma mensagem clara. Se a criança encontra alguém disposto a ouvir, orientar e ajudar a consertar o erro, aprende que pode procurar os pais nos momentos difíceis. Se a resposta for gritos, críticas ou humilhação, talvez ela conclua que esconder o problema é mais seguro.
“talvez eu não seja digno do amor da minha mãe”
Crianças precisam de limites e correção, mas também de sentir que um erro não diminui o amor dos pais. É possível apontar que uma atitude foi inadequada sem ferir, humilhar ou tratar a criança como se ela fosse o problema. Ao longo do tempo, essas experiências constroem a ideia que o filho terá sobre confiança, acolhimento e segurança dentro de casa.
Na adolescência, os desafios ganham outras proporções: um copo quebrado pode virar uma nota baixa, uma briga com amigos, uma mensagem constrangedora que circulou pela internet, pressão do grupo ou uma decepção amorosa. Nessas situações, o adolescente observa se pode conversar sem receber um sermão, uma sequência de perguntas imediatas ou uma solução imposta no lugar de escuta.
A comunicação verdadeira se constrói nos dias comuns. Ela aparece quando o adulto presta atenção a uma história que parece pequena na sua visão, mas que naquele momento é importante para a criança; quando permite que ela termine a frase, demonstra curiosidade por seus interesses e resiste à vontade de oferecer uma solução antes de compreender.
Dar espaço para pensar, escolher e resolver pequenos desafios começa cedo: organizar o material escolar, escolher a roupa do dia ou participar de algumas regras da casa são oportunidades de treino. Aos poucos, a criança percebe que os pais consideram sua opinião e aprende a lidar com as consequências das próprias escolhas. Na adolescência, essa busca por autonomia se torna mais intensa e visível.
Pressionar para que o adolescente conte tudo costuma aumentar a distância. Em vez disso, frases simples podem abrir espaço:
“Percebi que você está mais quieto. Se quiser conversar, estou aqui”
Também vale perguntar se ele quer uma opinião ou apenas ser ouvido. Cultivar a confiança desde a infância ajuda muito, mas nem sempre foi possível para todas as famílias — separações, jornadas de trabalho exaustivas, problemas de saúde ou fases difíceis de comunicação podem ter atrapalhado. Reconhecer isso não é atribuir culpa; é perceber o que pode ser feito agora.
A adolescência ainda dá tempo para recuperar proximidade. A conexão recomeça em pequenos gestos: ouvir com calma, reconhecer um excesso, pedir desculpas quando for preciso e demonstrar interesse pelo universo do filho. Talvez ele não se abra de imediato — tudo bem. A confiança cresce com constância. Quando o adolescente percebe uma disposição verdadeira para se aproximar, pode descobrir que, mesmo seguindo o próprio caminho, ainda encontra nos pais um lugar seguro para voltar.
Abraços maternos, Claudia Alaminos
Sobre Claudia Alaminos: educadora parental, mestrado em Psicologia e Educação pela USP, pós-graduada em Neurociências e Comportamento. Especialista em famílias de adolescentes, estuda o tema há mais de 20 anos. Mãe do Pedro (26 anos, em 2025). Instagram: @ClauAlaminos.

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